No último dia 20 estreou na Apple TV a serie documental de saúde mental que o príncipe Harry além de ser uma das estrelas, foi um dos produtores executivos, ao lado de Oprah Winfrey e outros nomes. The Me You Can’t See é baseado em diversos relatos de lutas de saúde mental de todos os convidados, desde o momento que eles entenderam que precisavam de ajuda, até a maneira com que eles estão hoje com todos seus problemas.

Os relatos apresentados são extremamente fortes e aconselhamos a todos assistirem aos mesmos, somente se você não tiver nenhum gatilho relacionado a abuso sexual, drogas, TOC, etc. Nos concentramos somente nos relatos do Harry que envolvem a Meghan e no Archie. A serie documental mostra com fidelidade as lutas pessoais dos personagens envolvidos e vale a pena assistir.

Diga em voz alta

O relato de Harry começa com ele admitindo que nunca pensou em buscar terapia em toda sua vida e que há somente quatro anos ele se trata regularmente. O ambiente que ele estava inserido não o encorajava a fazer terapia. A perda de sua mãe (Diana, Princesa de Gales) e todos os acontecimentos após morte da mesma, despertaram nele diversos gatilhos e ansiedade. O fato de Harry nunca ter lidado particularmente com seu luto, já que toda sua dor foi exporta para o mundo todo, e viver dentro de uma instituição que não valoriza a saúde mental como tanto pregam, fez com que ele buscasse alivio em bebidas alcoólicas e drogas.

Perdi minha mãe quando tinha 12 anos, pouco antes do meu aniversário. Eu não queria viver. Compartilhar o luto da morte da minha mãe com o mundo. Para mim o que mais me lembro é o som dos cascos dos cavalos passando pelo Mall. A essa altura, nós dois (Harry e William) estávamos em choque. Era como se eu estivesse fora do meu corpo e caminhando, apenas fazendo o que era esperado de mim. Mostrando um décimo da emoção que todos os outros estavam demonstrando.

Harry narra todas suas dificuldades dentro do papel que ele precisava exercer dentro da Família Real e como ele sempre dizia sim para todos os pedidos, mesmo que ele não estivesse bem para desempenhar qualquer que fosse o papel. O Duque também relembra que seus melhores momentos naquele tempo, foram seus anos no exército, onde ele era somente o Harry e tinha uma vida normal.

Eu estava disposto a beber, estava disposto a usar drogas, estava disposto a tentar e fazer as coisas que me faziam sentir menos como estava. Mas aos poucos fui percebendo que, ok, eu estava bebendo de segunda a sexta, mas provavelmente beberia o equivalente a uma semana em uma sexta ou sábado à noite. Eu me pegava bebendo, não porque estava gostando, mas porque estava tentando mascarar alguma coisa.

O Duque de Sussex deixa em clara ênfase de que é preciso que ciclos se quebrem, que as pessoas consigam chegar até a raiz do problema e não deixar com que o sofrimento acometa mais pessoas.

Se você passou por algo, isso não significa que seus filhos ou todas as outras pessoas tenham que passar pela mesma coisa que você.

Pedindo ajuda

Harry então entra na parte da importância da rede de apoio e de como a chegada de Meghan em sua vida o fez acordar para o fato de que ele precisaria enfrentar seu passado e buscar ajuda profissional.

Mas foi conhecer e ficar com Meghan, sabia que sem fazer terapia, e me curar, eu ia perder essa mulher com quem me via passando o resto da vida.

Houve muito aprendizado no começo da nossa relação. Ela ficou chocada ao chegar aos bastidores da instituição, da família real britânica. Quando ela disse eu procurar ajuda, foi em reação à uma briga. E nessa briga, sem saber disso, voltei a ser o Harry de 12 anos.

Foi o começo de um aprendizado. Vi que vivia numa bolha dentro dessa família, dessa instituição. Estava meio preso num processo de pensando ou mentalidade. Oito dias após nossa relação se tornar pública, falaram que ela (Meghan) veio de Compton, num tom racista. E que seu DNA exótico engrossaria o sangue real. Éramos seguidos, fotografados, caçados, assediados. O som das câmeras e os flashes fizeram meu sangue ferver. Me irrita. Me leva ao que houve a minha mãe e o que vivi quando criança.

Mas chegou a um novo patamar com a mídia tradicional e as plataformas de mídia social. Eu me sentia indefeso. Pensei que a família ajudaria, mas a todo pedido, solicitação, aviso, o que fosse, só havia silêncio total, abandono total. Por quatro anos, tentamos que desse certo. Fizemos tudo que podíamos para ficar lá e continuar com o papel e o trabalho. Mas Meghan vivia poucas e boas. As pessoas viram as fofos da gente apertando as mãos ao entrar no Royal Albert Hall em Londres, pro evento de caridade. Ela estava no sexto mês de gravidez. O que as pessoas não sabem é que, mais cedo naquela noite, Meghan decidiu me contar os pensamentos suicidas e os detalhes práticos de como acabaria com sua vida. O mais assustador foi a clareza do pensamento. Ela não tinha pirado. Não estava louca. Não se automedicava, com remédios ou álcool. Ela estava totalmente sã. Porém, no silêncio da noite, tais pensamentos a despertavam. O que impedia de levar a cabo, era o fato de ser injusto comigo. Depositado que aconteceu com a minha mãe, ter de enfrentar a perda de outra mulher da minha vida com um bebê dentro dela, nosso bebê.

Tenho vergonha de como lidei com isso. Por causa do sistema em que vivíamos, das responsabilidades e dos deveres, trocamos um carinho… e tivemos de ir nós trocar, entrar em um comboio com escolta policial e ir ao Royal Albert Hall pro evento. Sai para uma muralha de câmeras e fingi que tudo estava bem. Não existia a opção de desistir. De dizer que a gente não ia. Imagine só as especulações que surgiriam. Enquanto minha esposa e eu estávamos nas cadeiras de mãos dadas, quando a luz apagou, Meghan começou a chorar. Senti pena dela e raiva de mim mesmo por estarmos presos naquilo. Sentia vergonha de ficar tão ruim e de procurar minha família. Porque, sinceramente, como muitos da minha idade diriam, sei que minha família não dará o que preciso.

E daí tive um filho, em quem eu preferia me focar unicamente em vez de, ao olhar em seus olhos, me perguntar se minha esposa terminaria como minha mãe e teria de cuidar dele sozinho. Esse foi um dos grandes motivos para partirmos. Sentir-se preso e controlado por meio do medo, pela mídia e pelo sistema em si… que nunca encorajou que se abordasse esse tipo de trauma. Mas sei que agora não serei intimidado a fazer silêncio.

Descobrindo o que funciona

Harry neste ponto da série documental faz um paralelo entre a história de sua mãe e esposa e o quanto Meghan, mesmo com pensamentos suicidas, quis poupá-lo de mais perda. Harry enfatiza mais um vez que a decisão de não trabalhar mais para a monarquia, foi uma decisão sua.

Então, quadro anos atrás, só depois de conhecer Meg…você iniciou o processo de tentar descobrir isso. Não tinha tentando antes? Não. E rapidamente decidi que, para essa relação funcionar, eu teria que lidar com meu passado. Porque havia raiva ali. E não era raiva dela, era apenas raiva. E ela reconheceu. Ela viu.

Para mim, a terapia me equipou amparava-se capaz de fazer qualquer coisa. Por isso estou aqui agora. Por isso minha esposa está aqui agora. Essa sensação de estar preso dentro da família é… não havia opção de sair. Por fim, quando tomei essa decisão por minha família, ainda disseram que eu não podia. O quão ruim tem que ficar até que eu possa fazer isso? Ela ia se matar. Não deveria ter que chegar a isso. Eu tenho algum arrependimento? Sim. Meu maior arrependimento é não ter assumido uma posição mais precoce com minha esposa ao denunciar o racismo quando o fiz. A história se repetia. Minha mãe foi perseguida até a morte enquanto tinha um relacionamento com alguém que não era branco. E agora veja o que aconteceu. Quer falar sobre a história se repetir? Não vão parar até que ela morra.

Foi um gatilho enorme…poder perder outra mulher da minha vida. A lista está crescendo. E tudo volta as mesmas pessoas, o mesmo modelo de negócios, a mesma indústria. Meu pai, quando eu era mais novo, ele dizia para William e eu: “foi assim para mim, então será assim para vocês”. Isso não faz sentido. Só porque você sofreu, não significa que seus filhos tenham que sofrer. É o contrário. Se você sofreu, faça tudo que puder para que as experiências negativas que você teve… você possa concertar para seus filhos.

Optamos em colocar nossa saúde mental em primeiro lugar. É o que estamos fazendo é o que continuaremos a fazer. Não se trata de quebrar o ciclo? Não se trata de garantir que a história não se repita?

Este sou eu 

No último episódio, Harry faz revelações de como foram os dias pré-entrevista para Oprah e como a vida dele está neste momento.

Porém, antes da entrevista com a Oprah ser transmitida, por causa de manchetes e do esforço conjunto da firma (monarquia) e da mídia para difamá-la, fui acordado no meio da noite pelo o seu (Meghan) choro sobre o seu travesseiro, porque ela não queria me acordar, pois o meu fardo já estava enorme. Isso é de partir o coração. Eu a abracei. Nós conversamos. Ela chorou muito. Sem terapia e sem dedicação, não suportaríamos isso. Em toda a oportunidade, as forças lutam contra nós e tentam nos impossibilitar. Esperava estar nessa situação tão de pressa? Não. Fizemos um bom trabalho. E não me arrependo. É incrivelmente triste, mas não me arrependo de nada. Porque agora estou como deveria estar há quatro anos.

Estou mais à vontade comigo mesmo. Não tenho mais ataques de pânico. Aprendi mais sobre mim do que nos últimos quatro anos, do que nos 32 anos anteriores. Agradeço a minha esposa por isso. Temos um menino lindo, que nos mantém ocupados, correndo. Ele nos faz sorrir todos os dias e isso é ótimo. Temos dois cachorros. E uma menininha a caminho. Não tenho dúvidas de que minha mãe estaria orgulhosa de mim. Tenho a vida que ela queria ter. Tenho a vida que ela queria que tivéssemos. Não apenas sei que ela sente orgulho de mim, como sei que ela me ajudou a chegar até aqui. Nunca senti tanto a presença dela como no último ano. Queria que conhecesse a Meghan. Queria que estivesse aqui pelo o Archie. Tenho uma foto no quarto dele, uma das primeiras palavras ditas por ele, além de ‘mamãe’ e ‘papai’ foi ‘vovó’, ‘vovó Diana’. É a coisa mais fofa. Só que me deixa triste ao mesmo tempo. Pois ela deveria estar aqui. Estou curando essa parte da minha vida. Com uma clareza de perspectiva que nunca julguei que teria. Ainda sou a mesma pessoa, apenas me tornei uma versão melhor. Sinto que era pra ser assim.

A série documental é realmente um bom debate sobre saúde mental. Vale a pena assistir e conhecer histórias de outros nomes da mídia. Vale a pena ressaltar, que se você precisar de ajuda, entre em contato com CVV – Centro de Valorização da Vida que atende voluntariamente e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias. Ligue 188 caso precise de ajuda. Se você conhece alguém que precisa de ajuda, não feche os olhos: essa pessoa precisa de você.

Clique na imagem para assistir ‘The Me You Can’t See’